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Dona Dió: 57 anos de tradição no tabuleiro
por Tico Oliveira

[Atualização :: 13/12] Na Praça Nove de Novembro tem um monumento em mármore. Ali, na minha infância, eu gostava de bater figurinhas com os colegas. Desde aquela época eu já sabia: “Figurinha repetida não preenche álbum”. Ao chegar naquela praça, fui ver a querida “Dió”, a baiana do acarajé mais famosa do sudoeste da Bahia. Degustei um abará e comecei um papo interessante com a dona do tabuleiro de 57 anos, exposto na praça. Dona Dionízia de Oliveira Silva nos concedeu essa entrevista. Você vai ter o prazer de se deliciar com um tempero especial, do inicio ao fim.

“Dió” tem 73 anos, é viúva, tem quatorze filhos, quarenta netos e, ao falar dos bisnetos, perdeu a conta. Foi preciso o auxilio das filhas para contar. Elas são suas ajudantes no trabalho. Enfim concluíram a conta: trinta bisnetos. Ela é natural de Vitoria da Conquista e diz que é feliz na terra das rosas.

Impacto: A senhora começou quando, nessa atividade de vender acarajé?

Dió: Foi engraçado. Eu conhecia um rapaz. Ele era homossexual e tinha chegado de Salvador  hà pouco tempo. Freqüentava a minha residência, na Rua do Triunfo. Um dia ele me perguntou do quê eu vivia. Respondi que eu vivia de lavar trouxa de roupas (muitas roupas dentro de um lençol, amarrado entre as pontas). O nome dele era Mão Médio. Ele na época me disse: “eu vou ensinar a senhora a fazer acarajé”. E assim ele cumpriu. Aprendi e depois perguntei o preço da aula. Ele fez questão de me pedir “Olha dona Dió. Quando eu morrer, quero que a senhora pague cachaça para todo mundo que acompanhar o meu enterro. E para as crianças, a senhora distribui balinhas doces.

Impacto: E a senhora fez o desejo do Mão Medio?

Dio: Sim. Eu cuidei dele assim que ficou doente, em cima de uma cama. Quando ele morreu, eu fiz direitinho o que ele pediu. Só não comprei o caixão, porque quem deu foi o finado Zeri. Mas distribuí cachaça para todos que estavam no enterro, ali naquela venda perto do Cemitério da Saudade. E também dei doce para a criançada.

Impacto: A senhora tinha quantos anos quando aconteceu tudo isso?

Dió: Eu tinha dezoito anos e já tinha cinco anos de casada. Eu arrumei o meu marido aos treze anos.

Impacto: A senhora já foi discriminada por vender acarajé?

Dió: Já. Um dia, um pastor evangélico me perguntou se o acarajé era uma “comida sacrificada”. Eu respondi “é sim pastor, pois dá muito trabalho plantar e colher o feijão que rende estes quitutes gostosos”. Requer mesmo certo trabalho, e uma mão boa também. Esse sacrifício, estou passando para todas as minhas filhas, e netas, para elas ganharem a vida honestamente, sem precisarem se misturar, nessa vida de dificuldades.

Impacto: Além de Vitória da Conquista, a senhora já vendeu esses quitutes em outras cidades?

Dió: Além de ser convidada para eventos diferenciados, aqui em Conquista, eu já participei de muitas festas no norte de Minas Gerais.

Impacto: Fale do caruru, que já é uma tradição no mês de setembro.

Dió: É uma data muito importante para mim, que sou devota de Cosme e Damião. Por isso, faço essa comemoração entre minha família e amigos, oferecendo um delicioso caruru à todos. Muita gente importante já comeu em minha casa. Deputados, vereadores, prefeitos e muitos empresários.

Impacto: A senhora é Mãe de Santo?

Dió: Não. Eu já tive um pai de santo chamado João da Fundânga.

Impacto: E aquela escola de samba, em que desfilou por muito tempo, aqui em Vitória da Conquista, com o seu nome?

Dió: É. Foi por dez anos. Aí tudo acabou, quando nosso carnaval foi transformado em Micareta (em 1989), na época do prefeito Murilo Marmore. Hoje, nós baianas só participamos da “festa de momo” na quinta-feira, quando desfilamos com a água de cheiro, no evento da “Lavagem do Bêco”, na abertura da Miconquista.


 
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