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José Alencar: "A única eleição que disputei antes do câncer eu perdi"
O vice-presidente da República fala sobre sua luta contra o câncer e diz que "o Brasil está com saudade de Minas Gerais", referindo-se à sucessão presidencial

[Atualização :: 16/08] O vice-presidente da República, José Alencar, luta contra o sarcoma, um tipo de câncer que ataca músculos, entre outros tecidos – no caso dele, nas costas. Depois de três cirurgias e séries de químio e radioterapia feitas nos últimos dois anos, Alencar é um paciente que, mesmo diante de diagnósticos negativos, sorri, anima a família e até os médicos. "Não penso na morte", diz. Aos 76 anos, o vice-presidente adora conversar sobre seu futuro político e acredita que ainda tem "três ou quatro" eleições pela frente. Fala e gesticula com vitalidade. Só a lentidão dos passos denuncia o impacto da doença e os efeitos colaterais dos tratamentos sobre seu corpo. Na semana passada, ele recebeu VEJA por três horas no Palácio do Planalto, contou piadas, tomou café... e fumou duas cigarrilhas.

Como está o seu quadro clínico?
No começo do ano, achei que tinha me livrado do câncer. Depois de passar por uma série de sessões de radiofreqüência, meus exames indicavam que não havia mais nem sinal de tumor. Minha família, meus amigos e eu estávamos todos muito satisfeitos. Mas há dois meses fiz um exame e lá estava um tumor. Desta vez, em outro ponto. Não é brincadeira. Tenho um tipo de câncer chamado sarcoma. Esse câncer é recorrente. Mesmo depois de extirpado, pode voltar.

As sessões de radioterapia serão retomadas?
Não. Vamos tentar um novo tratamento de quimioterapia, baseado em um medicamento espanhol recentíssimo, o Yondelis. É produzido por um laboratório chamado PharmaMar, que fez pesquisa nos últimos vinte anos no fundo do mar. Descobriu lá alguma coisa que serve de base para esse remédio. O medicamento dá resultados surpreendentes no tratamento do sarcoma. O problema é que há mais de cinqüenta tipos de sarcoma. Analisaram o material biológico do meu na Espanha e concluíram que ele é muito sensível ao princípio ativo do remédio. Fiz a primeira sessão com Yondelis há quinze dias. Ainda farei mais duas. Estou com muita esperança.

O senhor já havia se submetido a quimioterapia?
Já, no ano passado. Mas foi com outro medicamento. Como a quimioterapia faz cair os pêlos, raspei o bigode, que usei por muito tempo. Minha mulher e minhas filhas acharam que ficou muito melhor.
A quimioterapia também causa queda de glóbulos vermelhos, glóbulos brancos, plaquetas e dá um cansaço grande. Mas não é nada que não possa ser superado.

Há quanto tempo o senhor luta contra o câncer?
Fui operado pela primeira vez de câncer em 1997, antes da minha primeira eleição para senador. Daquela vez, retirei tumores do rim e do estômago. Em 2002, quando já tinha aceitado o convite do Lula para ser vice, descobri um câncer na próstata. Também tirei. Em 2004 fui operado da vesícula. Nesse caso, não era câncer. Era só cálculo. Em 2006, no meio da campanha da reeleição, começou o sarcoma. Fui operado em Nova York pelo doutor Murray Brennan, um especialista nesse tipo de tumor. Onze meses depois, o sarcoma voltou. Ele reaparece no tecido muscular, sempre nas costas. No começo deste ano, fiz a radiofreqüência. Foram seis sessões de rádio, nas quais o tumor foi submetido por doze minutos a uma temperatura de quase 100 graus. São 72 minutos de fogo em cima dele. Todo mundo achou que ele tinha sumido. Mas voltou.

Quer dizer que em toda a sua vida política o senhor conviveu com um câncer?
A única eleição que disputei antes do câncer eu perdi. Foi em 1994, para governador de Minas. Em 1997, fui operado e, no ano seguinte, venci a eleição para senador. Em 2002, fui operado e virei vice. Em 2006, fui operado e reeleito. Nunca tinha relacionado uma coisa à outra. Pensando bem, se eu for operado de novo, é capaz de continuar ganhando eleições, não é?

O senhor realmente não se deixa abater...
Tenho fé em Deus. Um grande grego falou que não tinha medo da morte, tinha medo da desonra. Não me lembro se era Sócrates ou Péricles*. Digo a mesma coisa. Não penso na morte. O negócio é muito simples: todo mundo vai morrer. Por isso, não tem de ter medo. No dia em que Deus quiser me levar, não precisa nem de câncer. Você tem de ter fé em Deus e fazer a sua parte.

O que o senhor quer dizer com "fazer a sua parte"?
Obedecer rigorosamente ao oncologista. Seguir as ordens à risca. Pego todos os meus tumores em estado incipiente. Isso, aliás, todo mundo deveria saber: o fator mais importante no tratamento do câncer é o diagnóstico precoce. Tanto que pedi ao ministro José Gomes Temporão, da Saúde, para instalar na rede do SUS um aparelho chamado PET, que faz imagens da cabeça aos pés do paciente. Por menor que seja o tumor, ele detecta. É caro, mas temos de fazer um esforço. Porém, como eu digo, vice não manda, vice apenas pede.

O senhor mudou alguns hábitos pessoais por causa do câncer?
Não. Apenas deixei de beber vinho e uísque durante a quimioterapia. Não estou tomando bebida alcoólica, mas isso é porque a minha mulher não deixa, e encrenca comigo. Porque, vamos falar a verdade, uma taça de vinho não faz mal. Mas eu não estou tomando.

O senhor faz exercícios?
Faço. Todo dia.

O quê? Caminhada?
Não. Meu exercício é outro. Movimento os braços e as pernas. Mas é bom. Foi orientado por um professor de educação física. Aprendi as séries e faço em casa. Minha mulher acha graça. Diz que eu conto prosa e que não faço exercício coisa nenhuma. Mas faço.

O senhor está fumando?
São cigarrilhas. Mas todos os exames indicam que meu pulmão está limpo.

O senhor também fuma cigarros?
Fumei durante muitos anos, mas parei. Cigarrilha é diferente. Fumo uma, duas por dia. No máximo, cinco. E isso nas noites em que a gente dá uma esticada.

O presidente Lula gosta de uma cigarrilha, não é?
Foi ele quem me ensinou, aliás. Nós fumamos da mesma marca. É o nosso cachimbo da paz.

Vocês parecem ter ficado muito amigos, e as suas famílias também.
Somos muito ligados. Até do ponto de vista espiritual. Nossos objetivos maiores são os mesmos. A gente não se encontra mais nos fins de semana, porque a agenda dele é muito pesada.

Como é o presidente no dia-a-dia no Planalto?
Uma das qualidades mais extraordinárias dele é saber ouvir. Ele tem uma sensibilidade incomum. Consegue captar tudo o que está se passando. Politicamente, é um craque. Acho que não há nenhum outro como o Lula. Mais importante, talvez, é ele conhecer o Brasil como ninguém. Já viajou por todo o país várias vezes. Não há um canto do território que o presidente não saiba como é.

Que legado o senhor acha que o governo de vocês deixará?
O vice é só um coadjuvante. Não pode ser posto no mesmo patamar do presidente. O governo é do Lula – e é admirável. O maior legado será o prestígio que o Brasil passou a ter no exterior. Em todos os continentes, Lula é conhecido e admirado. Antes, quando um estrangeiro conhecia um brasileiro, dizia: "Viva Pelé! Viva Pelé". Agora, perguntam: "E o Lula?". No campo das relações externas, nunca houve um presidente que se aproximasse, ainda que distante, do trabalho que ele tem feito. Outra coisa importante é a acuidade com que Lula trata os problemas sociais. Ele tem uma marca de alta responsabilidade social. Isso vai ficar para o futuro. Uma das coisas que mais o realizam é essa melhora na distribuição de renda no Brasil. Esse crescimento da classe média brasileira, resgatando pessoas que estavam abaixo da linha da pobreza.

O que o senhor acha da idéia do terceiro mandato, que volta e meia surge entre os petistas?
A Constituição não permite. Mas a verdade – eu já falei e vou repetir – é que, se alguém perguntar o que o povo deseja, vai ouvir que o povo quer que o presidente Lula continue no poder. E por motivos óbvios: o bom desempenho da economia, a sensibilidade com os programas sociais, o apreço às camadas menos favorecidas da sociedade. Mas, para o presidente Lula, isso está fora de cogitação. Ele não topa de forma nenhuma.

Como a base aliada se comportará na sucessão, em 2010? Terá um só candidato?
O candidato do presidente da República será um só. Não pode haver dois. Como é que o presidente vai apoiar dois? Isso não existe.

O ex-ministro Ciro Gomes, por exemplo, sonha em ser candidato, mesmo sem o apoio do PT, e espera contar com algum apoio do presidente Lula.
Nós temos pelo Ciro a maior admiração, mas isso só ele pode responder. Estou dizendo que, se o presidente tiver candidato, será um, não serão dois. Isso é óbvio ululante. O presidente pode ter amizade com "n" candidatos, mas apoiará apenas um.

O presidente tem repetido que a candidata dele é a ministra Dilma Rousseff, da Casa Civil. O senhor a considera o melhor nome para a sucessão?
Se o Lula diz, foi ele que falou. Não posso fazer esse tipo de comparação. Ainda está muito cedo. A Dilma, apesar de muito ligada ao Rio Grande do Sul, é mineira. E o Brasil está com saudade de Minas.

Sempre que se fala em sucessão, e em Minas, fala-se no governador Aécio Neves, do PSDB. O senhor o considera preparado para ser presidente?
Já admirava o Aécio antes de ele nascer, porque fui amigo dos dois avôs dele. O avô paterno, que foi o deputado Tristão da Cunha, e o materno, que foi o presidente Tancredo Neves. O Aécio é um homem público bem-nascido. Possui todos os títulos para ser presidente. Agora, é claro que, se você faz uma análise de outros nomes de Minas, há muita gente além do Aécio que poderia ajudar a matar a saudade que o Brasil está sentindo de Minas Gerais.

Quem, por exemplo?
Patrus Ananias, o ministro do Desenvolvimento Social. Guarde bem esse nome. Ele será um grande político nacional. Ele é o responsável por um dos maiores sucessos do governo Lula, que é o Bolsa Família. É um moço de ouro.

E o senhor, que afinal também é mineiro, gostaria de ser presidente da República?
Veja bem, tenho 76 anos. Quando terminar o mandato, terei 79. O que é que eu posso querer mais da vida? No máximo, disputar mais umas três ou quatro eleições.

Mas poderia ser uma eleição para presidente?
Há muitos outros cargos que nunca ocupei. Por exemplo, não fui vereador na minha terra.

Qual é a sua terra?
Tenho muitas. Nasci em uma cidade, casei em outra... Minhas terras são muitas.

Muita gente diz que, se Lula quiser voltar em 2014, a melhor opção seria apoiar o senhor em 2010...
Eu ouço isso demais. Mas, em política, as coisas às vezes acontecem independentemente de você estar fazendo plano antecipado. Não significa que essa possibilidade já tenha passado pela minha cabeça. Não passou. Agora, se você perguntar a qualquer homem público se ele gostaria de ser presidente, e ele responder com sinceridade, vai dizer que sim. Eu posso afirmar que continuo sendo um soldado. Quando ingressei na vida pública, foi para valer. Não foi para botar um pé e sair. Ingressei confiante de que poderia ser útil ao meu país.


Rubens Ricupero: "A política externa brasileira perdeu seu último trunfo"
O ex-ministro da Fazenda diz que o colapso da Rodada de Doha foi fracasso da mais importante aposta do Itamaraty

[Atualização :: 11/08] O embaixador Rubens Ricupero cerca-se de cuidados para criticar o governo Lula. Afinal, até hoje ele paga pelo “escândalo da parabólica”, que levou à sua demissão do Ministério da Fazenda no governo Itamar Franco. Ali, quando se preparava a campanha de Fernando Henrique Cardoso para suceder a Itamar, Ricupero foi flagrado fazendo inconfidências a um jornalista antes de dar uma entrevista na televisão. Assim, Ricupero, atualmente diretor da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap), de São Paulo, esforça-se em equilibrar críticas e elogios quando analisa a política externa e comercial de Lula.

Com a autoridade, porém, de quem foi o secretário-geral da Conferência Nacional das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento (Unctad), Ricupero avalia que o Brasil pagará um preço grande pelo insucesso da Rodada de Doha, de negociação de regras para o comércio internacional. Para o ex-embaixador brasileiro nos Estados Unidos, Doha era o último vértice de um tripé em que o Brasil apostou. As duas outras pontas – o assento permanente no Conselho de Segurança da ONU e o estabelecimento do Mercosul como único bloco de países no continente – já tinham malogrado. O fracasso de Doha representa a derrota da última grande aposta brasileira no campo internacional. O Brasil, insiste Ricupero, não errou na tese. Apenas não teve sorte. “O príncipe precisa de virtude e de fortuna (sorte)”, diz Ricupero, citando Maquiavel. “Na política externa, faltou a fortuna”, completa ele, ressalvando que sua avaliação não é crítica, mas, sim, objetiva.

ISTOÉ – O Brasil apostou todas as suas fichas no sucesso da Rodada de Doha, mas a cúpula fracassou. O que se projeta agora para o País?
Rubens Ricupero – A aposta brasileira na rodada e na Organização Mundial de Comércio era uma imposição da nossa realidade. Um país que tem a sua competitividade concentrada na agricultura não tem outro caminho. Os problemas maiores da agricultura derivam sobretudo dos subsídios e das barreiras que os países desenvolvidos utilizam. Os europeus não vão abrir mão dos seus subsídios ou das suas barreiras se os americanos não fizerem o mesmo. Portanto, eles não vão negociar nada disso com o Brasil porque o que está em jogo para eles não é o Brasil, são os Estados Unidos. Então, isso só se resolve no âmbito multilateral. Infelizmente, para o Brasil, não há alternativa senão as negociações na Organização Mundial de Comércio.

ISTOÉ Então, não temos saída?
Ricupero – Nós temos que esperar que ocorra agora o que aconteceu na Rodada Uruguai (a série de negociações comerciais anterior à Rodada de Doha). Lá, a reunião que deveria ser a final, em Bruxelas, em dezembro de 1990, terminou com um fracasso total. Dois anos depois, a rodada se reativou e terminou num nível muito bom, que inclusive levou à criação da própria Organização Mundial de Comércio.

ISTOÉ Foi errada a tática do Brasil de dar as costas aos seus parceiros tradicionais e ficar numa posição autônoma?
Ricupero – O G-20 foi uma aliança para dizer não e não para dizer sim. Ela foi uma aliança construída em setembro de 2003 para fazer oposição ao que os americanos e os europeus queriam impor em Cancún, que era uma solução muito desequilibrada e insatisfatória na agricultura. Ali, o Brasil se uniu a um grupo muito poderoso, mas também que já se sabia muito disparatado. O Brasil tinha um interesse genuíno na liberalização do comércio agrícola, enquanto Índia e China sempre foram contrários. A aliança foi útil enquanto se tratava de resistir às imposições americanas e européias. Mas chegou um momento em que o Brasil fez o julgamento de que, agora, o que americanos e europeus estavam oferecendo era mais satisfatório.

ISTOÉO G-20 acabou?
Ricupero – Todos os países envolvidos vão dizer que o G-20 permanece. Se o problema for utilizar de novo essa tática de resistir às imposições de americanos e europeus, o G-20 serve. Mas, se for para negociar, não dá. Não é uma aliança para ganhar o jogo, é uma aliança para empatar o jogo.

Ganhar o jogo para nós significa aumentar o nosso acesso a mercados agrícolas não só da Europa ou do Japão, mas da China e da Índia.

ISTOÉSe o G-20 não é para ganhar o jogo, qual deve ser a estratégia do Brasil no momento em que se retomarem as negociações multilaterais?
Ricupero – Só interessa ao Brasil que o G- 20 vá até o final da negociação se isso não significar o fechamento do acesso brasileiro aos mercados agrícolas da China e da Índia. O futuro das commodities no mundo não está nos países ricos, está na Índia, na China e nos países asiáticos. Ali é que há mercado. E a razão é fácil de entender: a Europa e o Japão estão com uma população declinante. Como você não pode se alimentar além de um determinado limite, não há ali grande possibilidade de crescimento.

ISTOÉE como conquistar esses mercados?
Ricupero – O ideal seria o Brasil fazer ao máximo acordos com o Mercosul. Mas eu não sei se o presidente Lula vai querer enfrentar os problemas que decorrem disso. A complicação do Mercosul não é só a instabilidade da Argentina ou os problemas que viriam da adesão da Venezuela. O problema maior é que o Mercosul não tem um mecanismo de falar numa só voz como a Europa tem. A União Européia negocia comércio por sua comissão em Bruxelas. O Mercosul não tem uma estrutura assim. Não tem um executivo para negociar como bloco único. Negociar em bloco no Mercosul implicaria criação de um executivo único, e não sei nem se o Brasil deseja isso mesmo, porque também significaria abrir mão da sua própria autonomia.

ISTOÉE qual o futuro, agora? Qual o caminho a seguir enquanto fica no ar a Rodada de Doha?
Ricupero – A Rodada de Doha, no curto prazo, dificilmente ressuscitará. Haverá eleições nos Estados Unidos e também na Índia. Enquanto isso não acontecer, esses países não vão se mexer. Mas, num prazo de um ano, não acho impossível que as negociações sejam retomadas. E a verdade é que, em negociações bilaterais, o Brasil só vai conseguir resultados limitados, num produto ou noutro. Nós nem podemos negociar sozinhos, porque fazemos parte de uma união aduaneira, que é o Mercosul. O Brasil só pode fazer um acordo se todos os países do Mercosul fizerem. E nós temos parceiros complicados. É importante, para nós, fechar um acordo em Doha. Estrategicamente, para o País é ruim esse fracasso.

ISTOÉ Por quê?
Ricupero – A política externa do governo Lula teve três focos: o ingresso com lugar permanente no Conselho de Segurança da ONU, a idéia de usar o Mercosul como semente de uma união comercial e econômica da América do Sul e um acordo agrícola na Rodada de Doha. Eu devo dizer que estou de acordo com os três, mas a verdade é que esse tripé malogrou. A ampliação do Conselho de Segurança é uma discussão que saiu da agenda. O Mercosul como uma aliança única na América do Sul não é algo mais viável, depois que Chile, Peru e Colômbia assinaram com os Estados Unidos a entrada na Alca (Área de Livre Comércio das Américas). Realisticamente, só o que sobrava era a conclusão da Rodada de Doha.

ISTOÉ Então, fracassou a política externa do governo Lula?
Ricupero
– Política externa é algo que depende muito daquilo que diz Maquiavel em O príncipe: “O príncipe precisa de virtude e de fortuna.” Fortuna aí como sinônimo de sorte. Na política externa, faltou a fortuna. Em política externa, mesmo que se faça tudo certo, o sucesso também depende dos outros. Entrar para o Conselho de Segurança não depende só de nós. Aqui, no caso do Mercosul, as circunstâncias mudaram. A tônica hoje no continente não é mais a convergência, é a divergência.

ISTOÉ Mas será que o Brasil percebeu isso? Não houve alguns passos equivocados? Por exemplo, ter dado apoio às Farc, ter amparado Hugo Chávez?
Ricupero – Acho que o presidente Lula, conscientemente ou não, é um discípulo da forma de governar de Getúlio Vargas. Getúlio sempre governou equilibrando posições opostas no seu gabinete. Quando ele caiu, em 1945, estava no centro da criação de dois partidos, o PSD e o PTB, um rural e conservador; o outro urbano e progressista. Ele sempre se identificou com o PTB, mas governou com os dois. E sempre teve no governo pessoas que representavam posições opostas, e ele ficava na condição de árbitro. O presidente Lula faz exatamente o mesmo. Em política econômica, ele tem o Henrique Meirelles no Banco Central representando a faceta de direita, conservadora, que combate a inflação, e o Guido Mantega, no Ministério da Fazenda, com uma equipe crítica, alternativa. Na Justiça, tem o Tarso Genro com essas declarações sobre punição para tortura, e o Nelson Jobim do outro lado. Na Agricultura, tem o ministério do agronegócio e o da reforma agrária.

ISTOÉ E no Itamaraty?
Ricupero – Há ali o quadro de diplomatas e o grupo fora do quadro, liderado por Marco Aurélio Garcia. Este é o homem do partido, que tem simpatia pelas Farc. Antigamente, se dizia que o Partido Revolucionário Institucional (PRI, o partido então no poder no México) tinha uma política econômica conservadora, mas uma política externa progressista, de crítica aos Estados Unidos, como forma de se manter apegado às origens remotas da Revolução Mexicana. O mesmo ocorre com o PT. Tem que dar apoio simbólico ao padre Camilo, que vem aqui representar as Farc. Tem que acenar ao Hugo Chávez. Fazer um gesto em relação ao Fidel Castro. Mas, na hora de decidir, o governo é mais conservador.

ISTOÉ O ministro Celso Amorim foi alvo de muitas críticas ao final da reunião de Genebra. O sr. acha que ele se desgastou como negociador?
Ricupero – Não acredito. O ministro teve momentos pouco felizes, como quando citou a frase de Goebbels (Joseph Goebbels, ministro da Propaganda nazista). Mas isso se justifica no nervosismo da negociação. Ele é um homem extremamente inteligente, um diplomata audacioso. Há alguns anos, quando se falava de ampliação do Conselho de Segurança, sempre se citava também México e Argentina como possibilidades. Mesmo que essa seja uma discussão fora da pauta atual, hoje só se fala no Brasil como candidato a uma vaga. Isso é um mérito da política externa brasileira. Onde o Brasil poderia ter feito mais é na questão ambiental, na discussão sobre o aquecimento global. O Brasil detém a maior floresta tropical do mundo, tem a maior biodiversidade, tem uma matriz energética limpa e 30 anos de experiência na tecnologia de biocombustível. Faltou inteligência para o Brasil, no momento em que malograram os três focos em que apostou na política externa, ter investido nessa bandeira.

ISTOÉO governo vem adotando a alta das taxas de juros como principal instrumento de combate à inflação. Esse é o caminho correto?
Ricupero – A ameaça da inflação é real. E grande parte dessa ameaça vem do Exterior, de uma conjuntura mundial difícil. Então, aumentar a taxa de juros não vai resolver muito. Internamente, há medidas que, a meu ver, são contraditórias com o combate à inflação. Não vejo, por exemplo, como se pode conciliar combate à inflação com uma expansão desmesurada da produção de automóveis somada ao amparo de instrumentos de crédito. A promoção de 20 milhões de pessoas das classes D e E para a classe C é bem-vinda. Mas isso se justifica no consumo de alimentos, de gêneros de primeira necessidade. Mas automóvel não é bem de primeira necessidade. Incentivar isso é algo que eu só posso rotular de populismo.


Hermano Tavares: "A psiquiatria está reduzida a dar o remédio"
Médico do Hospital das Clínicas (SP) diz que não basta eliminar a tristeza. É preciso ensinar as pessoas deprimidas a ter prazer

[Atualização :: 02/08] O psiquiatra Hermano Tavares nunca se deu por satisfeito com a crescente tendência de pacientes tratados apenas com medicamentos. Ele acredita no poder que os remédios têm de equilibrar as funções cerebrais, mas considera que nenhum deles é capaz de tornar alguém feliz. "Bemestar não é tratar a tristeza e ponto. É promover a felicidade", diz o especialista do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo. Para elaborar essa tese, Tavares se apropriou da Psicologia Positiva, fundada nos Estados Unidos há dez anos. O movimento mostrou que todas as terapias se desenvolviam pautadas na doença e lançou a proposta de estudar o que faz as pessoas ficarem bem. O médico quer disseminar no Brasil a Psiquiatria Positiva. E tem grandes chances de obter sucesso nessa empreitada. A nova visão ganha cada vez mais eco num mundo no qual a depressão atinge 121 milhões de pessoas, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS).

ISTOÉ - O sr. diz que eliminar o sofrimento não é suficiente, é necessário ensinar o paciente a encontrar prazer e bem-estar. Qual sua proposta?
Hermano Tavares - Desejo que a psiquiatria siga a proposta recente - e bárbara - da Psicologia Positiva. O movimento recebeu esse nome do pesquisador Martin Seligman. Ex-presidente da Associação Americana de Psicologia, ele começou a pesquisar nos anos 90 um método diferente do conhecido até então. Seligman mostrou que a psicologia se desenvolveu pautada na doença do paciente, apenas os momentos ruins eram estudados e trabalhados. E ninguém lembrou que era necessário destacar as horas boas, fazê-las presentes na vida das pessoas. Os esforços foram direcionados para apenas um dos lados da moeda, mas medicina não é só combate à doença. É também promoção da saúde e do bemestar. Há um longo caminho a percorrer até a felicidade e a um conceito mais amplo de saúde. Se existe a Psicologia Positiva, por que não criar a Psiquiatria Positiva? Há evidências de que isso é possível e desejável.

ISTOÉ - Quais são as evidências?
Tavares - A dificuldade que as pessoas têm de entender que o contrário de tristeza não é felicidade. São sentimentos independentes. Inclusive, biologicamente falando, estão localizados em estruturas cerebrais diferenciadas. Às vezes, pela mesma razão, mas por motivos diferentes, você fica triste e alegre. Por exemplo, seu namorado ganhou uma bolsa para passar dois anos na Alemanha. Esse era o sonho da vida dele, você acompanhou todo o processo, fica feliz, orgulhosa - e triste, porque são dois anos separados. O mesmo evento suscitou dois sentimentos diferentes.

ISTOÉ - Diante dessa conclusão, o que deve mudar no tratamento psiquiátrico?
Tavares - Para começar, é necessário entender que bem-estar não é tratar a tristeza e ponto. É tratar a tristeza e promover a felicidade. Tratamentos psiquiátricos centrados em remédios são focados na redução das emoções negativas. Isso deve ser revisto. Temos tratamentos com antidepressivos (que são antidepressão), com ansiolíticos (que são antiansiedade) e com antipsicóticos (que são antipsicose). Mas combater a psicose não garante a racionalidade. O tratamento ideal é antidepressivo e pró-felicidade, ansiolítico e pró-serenidade e antipsicose e pró-racionalidade.

ISTOÉ - Os remédios podem ser abandonados por pacientes de saúde mental?
Tavares - A questão não é abandonar os remédios que existem. Jamais. Se não cuidarmos dessa parte, entregaremos tratamentos pela metade. Mas tratar os sintomas de depressão de um paciente não é tratar apenas os afetos negativos.

ISTOÉ - O tratamento convencional da psiquiatria também não inclui encaminhar o paciente para a psicoterapia?
Tavares - Se o especialista encaminha o paciente para a psicoterapia já faz mais do que só tratar a depressão. Seria ótimo se fosse sempre assim, mas não é a regra. A psiquiatria está reduzida a dar o remédio. Graças aos convênios médicos e à pressa que as pessoas têm de resolver os problemas. Ninguém quer ter tempo para refletir sobre a vida e as mudanças que devem ser feitas. O médico fala: "Está deprimido? Toma aqui esse remédio e em quatro semanas você estará melhor da depressão". Ele ficará menos deprimido, mas não terá mais bem-estar.

ISTOÉ - O que é ser feliz?
Tavares - Temos que diferenciar alegria de felicidade. Alegria é um estado passageiro, felicidade é mais duradoura. É quando a pessoa é dominada a maior parte do tempo por afetos positivos e não negativos. E, no senso maior, o conceito de felicidade se aproxima do de bem-estar. Seria a noção mais ampliada do "ser feliz".

ISTOÉ - Como alcançar esse bem-estar?
Tavares - Estou desenvolvendo um estudo com imagens que pode ajudar a entender o que é fundamental nessa busca. Na pesquisa, uso fotografias que causam diferentes emoções, como tristeza, nojo, raiva e felicidade. Quando examinei as imagens que causavam felicidade, eram, em geral, conteúdos que apelavam aos desejos. Uma comida gostosa, homens e mulheres bonitos. Objetos de consumo também. É a primeira observação: coisas que apelam para o desejo e que poderiam satisfazer essa vontade causam felicidade.

ISTOÉ - O que mais pode nos trazer felicidade?
Tavares - Outros resultados desse trabalho mostraram que imagens de paisagens, lugares bonitos, a comunhão com a natureza e sentimentos espiritualizados também trazem felicidade. O amor é importante. Fotos de pessoas abraçadas, com bichos de estimação, de crianças brincando geraram a sensação de bem-estar. É a prova de que somos seres sociais e que devemos compartilhar momentos. Algo simples, que todos podem fazer.

ISTOÉ - O sucesso não aparece como um fator de felicidade?
Tavares - Sim. Havia fotos de pessoas gozando do sucesso: uma imagem do Ronaldo marcando um gol na final da Copa de 2002, um atleta cruzando a linha de chegada, um alpinista no alto da montanha nevada. A idéia de vencer, alcançar um objetivo também é importante na formação do conceito de felicidade.

ISTOÉ - O que provam essas reações?
Tavares - Que não adianta ir atrás de um medicamento que simule essas experiências. É melhor que você as tenha, que consiga encaixar essas experiências dentro da sua realidade. Se não tem recursos para fazer uma viagem, escalar uma montanha , busque desafios no cotidiano.

ISTOÉ - Como foi feita essa pesquisa?
Tavares - Com voluntários que eram alunos das faculdades de medicina, psicologia e engenharia da Universidade de São Paulo. Foram 156 alunos, 91 homens e 65 mulheres. É um banco de dados imenso que está sendo analisado. O curioso é que a pesquisa ficou conhecida como o estudo do chocolate. Para convencer as pessoas a participarem, tentamos a gratificação, R$ 20. Ninguém apareceu. Mudei para uma caixa de bombons e tive um retorno enorme. É a prova de que as pessoas querem o que lhes traga bem-estar.

ISTOÉ - Mas como convencer o paciente de que, vivendo coisas simples, ele encontrará a felicidade?
Tavares - Não tenho dificuldade para convencer ninguém. Quando pergunto se desejam ser felizes, eles dizem: "O que tenho que fazer?" É aí que entra a segunda metade da laranja e que deveria ser regra. A orientação e o apoio médico. O paciente chega cheio de sintomas? Claro que precisa de medicação. O remédio trouxe serenidade? É hora da segunda parte, a psicoterapia. A partir daí a pessoa revê seu estilo de vida para chegar ao bem-estar. E é o encaminhamento que os psiquiatras não fazem e a que as pessoas dizem não poder se submeter por falta de tempo.

ISTOÉ - Depois de encaminhar para a psicoterapia, o sr. trabalha com seus pacientes a busca pela qualidade de vida. Como funciona?
Tavares - Trabalho com pessoas compulsivas, que têm problemas com jogos, compras, sexo, comida. Drogas e álcool também, mas numa escala menor. Veio daí a idéia de que a Psicologia Positiva pode ajudar dentro da psiquiatria. A experiência que tenho com os jogadores compulsivos mostra que, ao apoiar o paciente, medicá-lo corretamente e indicar falsas concepções sobre possibilidades de ganho no jogo, ele reduz as apostas. Mas não há promoção do bem-estar com o fim do jogo. É necessário fazer com que ele encontre fontes de prazer fora dele.

ISTOÉ - E como ele encontra essas fontes de prazer?
Tavares - No Instituto de Psiquiatria, o paciente passa por um grupo de acolhimento, no qual aponta suas dificuldades, e pela psicoterapia voltada exclusivamente para problemas relacionados ao jogo, para suprimir o apostar recorrente. Conseguimos que 60% deles parem de jogar. Os outros 30% reduzem drasticamente. A partir daí, o problema é reestruturar a vida. Para isso, criamos há dois anos o tratamento pós-terapêutico. São sessões em grupo, uma vez por semana, nas quais falam sobre suas melhoras e o que ainda querem resgatar. Depois, passamos dicas de lazer de graça ou quase de graça em São Paulo. Temos uma lista de parques, teatros, shows. Isso ajuda a melhorar a vida das pessoas.

ISTOÉ - O resultado é positivo?
Tavares - Excelente. Não só essas pessoas se saem melhor do que aquelas que pararam na terapia como têm menos recaídas e mostram maior satisfação com a vida.

ISTOÉ - Uma pessoa em tratamento pós-terapêutico pode largar o remédio?
Tavares - Depende do diagnóstico, do histórico familiar e da evolução da doença. As chances de prescindir da medicação crescem se o paciente aumenta a própria qualidade de vida. Quem tem uma depressão a cada dez anos não precisa manter o remédio. Se foi um episódio isolado, também não. Se há familiares deprimidos, melhor manter a medicação. Ninguém é condenado ao status de depressivo. Deve-se dizer ao paciente que ele está deprimido, que será tratado e, depois, a necessidade de continuar a medicação será verificada. Mas devemos antecipar que suprimir o remédio no futuro depende em parte do esforço dele em reformular a própria vida.

ISTOÉ - O sr. acha que o uso de medicamentos como antidepressivos se tornou indiscriminado?
Tavares - Na verdade, o que há é um melhor diagnóstico. Muita gente sofria e não sabia que tinha tratamento. Talvez exista algum abuso no uso desses remédios, mas acredito que seja menor do que o alardeado. Alguns dizem que apenas psiquiatras deveriam prescrever essas drogas, mas isso não é realista.

ISTOÉ - O sr. vai contra a idéia pregada pela maior parte dos psiquiatras.
Tavares - Eu sei. Mas os dados mostram que 25% da população têm ou terão um quadro depressivo ao longo da vida. Não haverá psiquiatras suficientes no mundo. As outras especialidades médicas devem ser iniciadas minimamente na arte de diagnosticar e tratar uma depressão.

ISTOÉ - O sr. não é contra tirar das mãos dos psiquiatras a decisão de diagnosticar e tratar doenças mentais?
Tavares - De jeito nenhum. Médicos não psiquiatras prescreverão remédios, em determinadas situações, quando não for necessário. Mas ainda é um preço menor diante das pessoas que ficarão sem tratamento se a prescrição for restrita ao especialista. Apesar de entender o discurso de que é preciso cuidado na administração de antidepressivos, tenho receio de que seja uma tentativa de reserva de mercado de alguns profissionais.

ISTOÉ - Mas médicos de outras especialidades precisam de um conhecimento sobre saúde mental que não recebem na faculdade.
Tavares - Sim, sem dúvida alguma. Mas eu, como psiquiatra, preciso entender as variações de humor na mulher durante o ciclo hormonal. Seria legal ir à Sociedade Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia fazer um curso sobre essas questões. E igualmente interessante que os ginecologistas aprendessem conosco, psiquiatras, sobre as doenças do humor mais comuns. Se toda paciente que tiver alterações de humor próximo ao período menstrual chegar ao psiquiatra, não daremos conta da demanda.

ISTOÉ - O sr. diz que não existem psiquiatras suficientes para a demanda de problemas mentais no mundo. A que leva isso?
Tavares - Um estudo conduzido pela USP na Grande São Paulo mostrou que 48% da população teve um diagnóstico psiquiátrico ao longo da vida. É o habitual em qualquer grande centro urbano. Inclui tabagismo, alcoolismo, depressão e ansiedade. Depois, vem compulsão por jogo, transtornos alimentares, esquizofrenia, entre outros. Todas essas pessoas vão merecer tratamento psiquiátrico. E não daremos conta.


Milton Monti: "O Estado não pode tutelar a sociedade"
O presidente da Frente Parlamentar de Comunicação diz que a Constituição estabelece só cinco pontos a serem normatizados: tabaco, álcool, medicamentos, agrotóxicos e terapias

[Atualização :: 28/07] A aprovação na Comissão de Defesa do Consumidor da Câmara dos Deputados, no início do mês, de um projeto que proíbe a publicidade dirigida a crianças até 12 anos detonou uma grita geral entre os profissionais de comunicação, preocupados com a restrição à liberdade de expressão imposta pela medida. Para ampliar o debate em torno desta proposta e outras 200 em tramitação no Congresso ou em gestação na Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa) com repercussão na atividade publicitária, foi criada a Frente Parlamentar de Comunicação Social.

Composta por 198 deputados e 38 senadores de 17 partidos, a Frente é presidida pelo deputado Milton Monti (PR-SP), um dos vice-líderes do governo na Câmara. “Tenho a expectativa de ganharmos mais adesões em breve”, diz Monti, que começou a carreira política aos 21 anos como prefeito de São Manuel (SP) e está em seu terceiro mandato como deputado federal. Aos 48 anos, casado e pai de três adolescentes, Monti diz que cercear a publicidade é abrir uma porta perigosa: “A liberdade de expressão é um bem inalienável. Não podemos abrir mão disso, pois os desdobramentos podem ser nefastos.”

ISTOÉ – Como será a atuação da Frente Parlamentar de Comunicação Social?
Milton Monti – Nós começamos a nos organizar um mês antes do IV Congresso Brasileiro de Publicidade, que aconteceu dias atrás. No Congresso Nacional, existem várias propostas que querem normatizar de alguma forma os anúncios, algumas de iniciativa do governo. Poderemos usar a estrutura do Congresso e convidar para o debate todos que têm relação com o tema direta ou indiretamente. Assim, iremos ampliar a discussão, que estava pobre.

ISTOÉ – Por que estava pobre?
Monti – Porque estava restrita às comissões da Câmara, que têm em média 30 membros. A comissão não é o extrato do pensamento da Casa e muitas vezes não conta nem com especialistas ligados diretamente à questão para contribuir para a discussão. A idéia é fazer com que o Congresso debata este assunto de forma abrangente e não fique, pura e simplesmente, numa falsa premissa de que a proibição da veiculação de anúncio de determinado produto irá resolver um problema que eventualmente exista.

ISTOÉ – O que é fundamental nesta discussão?
Monti – O conceito de tutela, de censura, de retirar a liberdade de expressão. Cercear algumas coisas hoje é abrir uma porta perigosa. Temos que manter o conceito muito claro, a liberdade de expressão é um bem inalienável. E não podemos abrir mão disso, pois pode haver desdobramentos nefastos no futuro. É uma trilha pela qual nós não devemos caminhar. É perigoso porque onde passa um boi passa uma boiada.

ISTOÉ – Dos projetos existentes, qual o mais equivocado, na sua opinião?
Monti – Foi aprovado recentemente na Comissão de Defesa do Consumidor um que proíbe publicidade para crianças ou de qualquer produto infantil, uma coisa absurda. Em 2006, foi aprovada uma lei para proibir a publicidade de bico de mamadeira a pretexto de que ela conspirava contra o aleitamento materno. Isso não tem sentido. São coisas equivocadas.

ISTOÉ – Por que o sr. acha que proibir publicidade para crianças é absurdo? Vários países, como Suécia, Noruega, Itália, Irlanda, Grécia, Dinamarca e Bélgica, ainda que com diferenças entre si, proíbem a propaganda destinada ao público infantil.
Monti – Temos que ter a possibilidade de as pessoas discernirem e verificarem por si só qual o melhor caminho a tomar. Claro que isso envolve uma discussão maior sobre cultura, sobre educação, uma série de questões. Agora, simplesmente proibir a veiculação de determinado comercial de brinquedo, na minha opinião, não é a solução.

ISTOÉ – O argumento é que as crianças ainda não têm pensamento crítico e a propaganda acaba gerando uma necessidade de consumo que não existe de fato e, em alguns casos, cria até problemas para os pais, pois eles não têm condições de comprar o produto e são azucrinados pelos filhos. Isso não faz sentido?
Monti – A questão é a seguinte: nós vamos criar nossos filhos em uma redoma de vidro ou eles irão crescer conhecendo o mundo e estando preparados para ele? Isolar as crianças da realidade que existe lá fora, no meu entendimento, não é a melhor coisa.

ISTOÉ – Especialistas e entidades ligadas à questão da criança e do adolescente são favoráveis a este projeto. Eles argumentam que o Estatuto da Criança, que completou 18 anos, fala da proteção integral a ela e esta seria uma maneira de protegê-la, tanto dos alimentos prejudiciais quanto da possibilidade de criar uma geração de consumistas.
Monti – Acho que devemos criar pessoas normais. Digo isso como pai. Não gostaria que meus filhos vivessem em uma redoma de vidro – e eles não vivem. São orientados por mim e por minha mulher a discernir sobre as coisas certas e as erradas. Não posso imaginar como crianças tuteladas irão se virar neste mundo tão complexo que a gente vive hoje, com informação tão fácil. Com a internet, você tem acesso ao que quiser. Isso é algo que está enviezado nesta discussão. O caminho é proibir a publicidade? Ou o caminho é informar, conscientizar e educar?

ISTOÉ – Esse filtro deveria ser exercido pela família, pelos pais?
Monti – Sim, pela família. O Congresso e o governo podem contribuir no sentido de não enganar as pessoas, que têm o direito de ser bem informadas. Se há deficiências nas famílias, na educação, na cultura, é outra discussão. Não podemos criar um país de alienados, não pode haver tutelas excessivas. O Estado tem a responsabilidade de organizar a sociedade, mas não pode tutelá-la a este ponto. O assunto é complexo, há várias vertentes sobre o tema que precisam ser esgotadas. Não adianta focar apenas na questão da publicidade. Temos de ter um ponto de partida, e este é a Constituição. Ela estabelece liberdade total e proíbe qualquer tipo de restrição em relação à produção intelectual, informação e publicidade. E coloca apenas cinco pontos a serem normatizados: tabaco, bebida alcoólica, medicamentos, agrotóxicos e terapias. Se nós vamos mudar a Constituição, este debate tem de acontecer.

ISTOÉ – O sr. acha que não é necessária nenhuma normatização?
Monti – Acho que a publicidade tem uma força muito grande, um poder que precisa ser considerado. Mas é preciso debater isso e contemplar, inclusive, a participação dos meios de comunicação. Eu vejo – e vou me aprofundar nisso – que o Conar (Conselho Nacional de Auto-regulamentação Publicitária) já exerce papel de auto-regulamentação e que, me parece, funciona.

ISTOÉ – Mas o Conar não tem força de lei, é apenas disciplinador. Não é preciso um balizamento jurídico mais efetivo?
Monti – Aí voltamos para a Constituição, que coloca os pontos de maior cuidado e regulamentação, mas nunca de proibição. É uma discussão muito difícil, mas ela precisa ser feita. Há outras repercussões, como, por exemplo, imaginar que a publicidade não é útil para a democracia. A publicidade hoje garante a autonomia e independência dos meios de comunicação. Além de ter participação importante na vida da sociedade, também difunde cultura, conhecimento.

ISTOÉ – Discute-se se a propaganda de cerveja deveria ser proibida durante o dia, horário em que os jovens assistem à tevê, pois seria uma maneira de desestimular o consumo nesta faixa etária. Qual sua opinião sobre isso?
Monti – Hoje existe a regulamentação de não associar a bebida ou tabaco ao desempenho sexual, virilidade, sucesso, pois isso, evidentemente, levaria um pensamento equivocado para a juventude. A publicidade, atualmente, difunde muito mais a marca do que o hábito da bebida. Tenho dúvidas de que a ausência da propaganda induzirá a pessoa a não beber. É preciso ouvir especialistas sobre isso. Até onde tenho observado, quem quer beber cerveja em um boteco consumirá a marca A e não a marca B ou C por conta da publicidade. Não creio que ele deixará de tomar cerveja porque ela não é anunciada.

ISTOÉ – Mas não foi isso que foi feito com o cigarro? A propaganda na tevê e os patrocínios culturais e esportivos foram proibidos e o Brasil é um dos países que mais reduziram o consumo de cigarro no mundo.
Monti – O que precisamos saber é o seguinte: foi só por conta disso ou foi por conta da conscientização de que o cigarro faz um mal irreparável à saúde? Precisamos ponderar essas coisas.

ISTOÉ – O sr. não acha que a ausência de publicidade contribuiu?
Monti – Acho que contribuiu muito mais a informação dos malefícios causados pelo cigarro do que a ausência de publicidade. Se tivéssemos eliminado a publicidade sem uma campanha informativa dos prejuízos que o cigarro traz, não teríamos conscientizado as pessoas de que o cigarro faz mal. As pessoas teriam contato com o cigarro de outra forma, na rua, com o colega na escola. Tudo isso precisa ser ponderado. Na minha opinião, é muito mais importante informar e conscientizar do que proibir.

ISTOÉ – Como ocorreria essa conscientização?
Monti – Quando você coloca no próprio produto as características dele, como aconteceu com o cigarro e pode acontecer com determinados alimentos, você está contribuindo para a informação. E o governo pode fazer campanhas neste sentido, podemos usar as escolas. Não podemos ter tutela, mas uma população bem informada e consciente. É muito mais útil informar bem e conscientizar as pessoas do que proibir.

ISTOÉ – O sr. é a favor, então, de os rótulos e as embalagens de alimentos trazerem alertas sobre os riscos de se consumir gorduras em excesso? Às vezes, um único sanduíche em um fast-food tem a quantidade de gorduras recomendável para um dia inteiro, segundo a Organização Mundial de Saúde.
Monti – Acho totalmente pertinente o produto conter informações sobre possíveis riscos. Com poder de discernimento, a pessoa pode pensar: “Esse produto não vou consumir porque não é bom.” Ou até dizer: “Não vou consumir este produto porque ele é feito por indústria que polui.” É reação da sociedade. Mas isso não significa que o produto, ou a indústria que fabrica aquele produto, terá sua publicidade proibida. Da mesma forma, se existem alimentos ou medicamentos que estão trazendo informação enganosa, incorreta, indevida, isso deve ser corrigido. Se está errado, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) deveria comunicar a empresa para que ela faça a correção na sua embalagem. Não tem nada a ver com veiculação do produto na mídia.

ISTOÉ – O sr. acha que a liberdade de comunicação para a imprensa, que em última instância presta um serviço público, e a publicidade, cuja maior função é vender um produto, deve ser a mesma?
Monti – São coisas diferentes, mas que se encontram porque sem uma publicidade atuante nós não vamos ter liberdade de imprensa. O que teremos, fatalmente, são veículos de comunicação que estarão submetidos aos governos de plantão. Nos governos totalitários não tem publicidade. Ou seja, embora tenham objetivos diferentes, elas estão intimamente ligadas.


Carlos Lessa: "'O Brasil não vai escapar da inflação"
Ex-presidente do BNDES critica estratégia do governo para enfrentar alta do petróleo, mas elogia biocombustível

[Atualização :: 21/07] Aos 72 anos, o economista Carlos Lessa desistiu de disputar a Prefeitura do Rio de Janeiro pelo PSB. Por um partido de estrutura ínfima no Estado, seria uma aventura sem maiores conseqüências. Mas a receita que Lessa teria para o Rio é a mesma que tem para o Brasil: é preciso que tanto a cidade como o País recuperem a auto-estima. "O presidente Lula é muito bom nas políticas sociais e tem instinto para o que quer o povo brasileiro, mas não tem nenhuma visão nacional; se ele tivesse, não se deslumbrava tanto com os aplausos que recebe no Exterior", critica. Duro e irônico, Lessa cobra, inclusive, a atitude da mulher de Lula, Marisa Silva, que requereu cidadania italiana para ela e para os filhos: "Se o Lula soubesse o que é Estado nacional, teria dado uma bronca na mulher." Crítico ferrenho da política econômica - motivo, inclusive, da sua saída da presidência do BNDES em novembro de 2004 -, Lessa alerta que o governo não está dando a devida importância à crise internacional de petróleo. Ainda que o Brasil tenha reservas, a situação mundial pressionará os preços, especialmente das commodities, e o País não pode ter como única resposta o aumento das taxas de juros e a política cambial, determinados pelo Banco Central. "Querer controlar a inflação com câmbio é suicídio nacional", dispara. Lessa afirma que "é preciso acabar com a 'paulistocentria' na política brasileira". Sua chapa ideal seria formada pelo governador tucano Aécio Neves e o deputado Ciro Gomes, do PSB. Na segunda-feira 23, Lessa deu a seguinte entrevista.

ISTOÉ - A crise do petróleo que abala a economia mundial veio para ficar?
Carlos Lessa - Veio para ficar, por uma razão muito simples: há 25 anos, as reservas conhecidas e estimadas de petróleo vêm crescendo menos do que o consumo. Grande parte do crescimento das reservas se dá por reavaliação dos campos já conhecidos. Não há descobertas relevantes de novos grandes campos.

ISTOÉ - A escassez tende a se agravar?
Lessa - Sem dúvida. E a escassez empurraria inexoravelmente o preço do petróleo para cima. Eu não entendo por que o governo brasileiro não assume isso como um dado estratégico. Isso modifica todo o futuro. Talvez seja o dado mais importante à meditação do planejamento do País.

ISTOÉ - O governo alega que, graças às reservas de pré-sal, o Brasil está em situação mais confortável.
Lessa - Não é esse o problema. Em primeiro lugar, é inexorável uma inflação mundial. E o Brasil não vai escapar a ela. Por quê? O petróleo é o formador de custos de todos os alimentos e de todas as commodities no mundo. Tudo que é produzido tem um componente pesado de transportes, principalmente as commodities e as matérias- primas. Então, todos os preços mundiais não vão parar de subir.

ISTOÉ - Nesse quadro, não importa se você é auto-suficiente ou não?
Lessa - Só se você tiver uma política em relação ao seu próprio petróleo, diferenciando o preço para dentro do preço para fora. Aliás, é o que eu recomendaria ao Brasil. Não se trata de subsidiar. Deveria se vender pelo preço internacional para o mundo, mas, internamente, o combustível seria vendido com certa margem de ganho, porém pequena. Em vez de a crise inspirar uma política de petróleo para o País, ligada ao futuro, está inspirando outra coisa.

ISTOÉ - O que exatamente?
Lessa - Está justificando o dr. Meirelles (Henrique Meirelles, presidente do Banco Central) a empurrar os juros para cima, para segurar a inflação pela taxa de câmbio. Ele só segura a inflação mundial empurrando para baixo a taxa de câmbio. Ao elevar os juros, ele consegue até segurar o câmbio, pois dá um prêmio colossal para os aplicadores estrangeiros em papéis brasileiros. Além disso, não aplica imposto sobre essas aplicações.

ISTOÉ - E assim atrai investimentos.
Lessa - O dinheiro entra. E a taxa de câmbio vai para baixo. Meirelles segura a inflação com a taxa de câmbio. Mas a custa de quê? De pagar uma taxa de juros proibitiva, que impede o governo de fazer política de saúde, política de educação, política de transportes e tudo mais.

ISTOÉ - A inflação já ultrapassou o chamado centro da meta. A situação pode se agravar?
Lessa - A inflação mundial já está produzindo intensos movimentos sociais de protesto na Europa. Eles estão importando petróleo a US$ 140 o barril e empurrando para cima os preços de tudo. Portanto, querer controlar a inflação por câmbio é suicídio nacional. Você premia a especulação de uma maneira desvairada. Quando empurra a taxa de câmbio para baixo, todos os indivíduos que trouxeram dólar antes e compraram títulos da dívida pública têm dois ganhos: um com a taxa real de juros louca que o Brasil paga e, outro, com a diferença entre o dólar que ele vendeu e o que ele compra, bem mais barato. O que o Meirelles faz é um suicídio nacional.

ISTOÉ - Há risco de desequilíbrio nas contas externas do País?
Lessa - O problema é o seguinte: o especulador internacional adora receber os juros que o Meirelles paga. Aliás, isso também vale para o especulador brasileiro, que vai para o Caribe e volta como internacional. Agora, há um medo, que é o de o balanço de pagamentos do País começar a ratear. Se a conta comercial ficar fraca, o especulador internacional vai recuar.

ISTOÉ - A economia brasileira, a seu ver, está frágil?
Lessa - Está estruturalmente muito frágil do ponto de vista macroeconômico de longo prazo. Acho também que está frágil do ponto de vista macropolítico de longo prazo. Pela seguinte razão: é caríssimo furar o pré-sal, exige desenvolvimento tecnológico e a manutenção de um patamar de preço internacional do petróleo altíssimo. Dominar os campos de présal pode se converter na melhor aplicação financeira possível para o Brasil. Mas, se extrair além de nossas necessidades, adoidado, o Brasil pode se tornar o Iraque do futuro. Por que os americanos estão no Oriente Médio? Por uma razão muito simples: os Estados Unidos não produzem nem 40% do petróleo que consomem. Imagine o Brasil dizer que tem um pré-sal colossal, que pode cobrir a brecha americana? Vamos virar de novo o quintal dos Estados Unidos. E não há pior coisa no mundo do que ser quintal deles.

ISTOÉ - Com relação à política de biocombustíveis, o Brasil está na posição certa?
Lessa - Sou inteiramente favorável. Se o presidente Lula comete alguns erros estratégicos brutais, como a política em relação ao petróleo, em outras coisas ele acerta em cheio. Está certíssimo na questão do biodiesel e do combustível renovável. O Brasil tem tudo para ser uma grande potência. Nós temos muita energia hidrelétrica e podemos ampliar muito a oferta. E é a mais renovável de todas. Temos sol quase todo o ano, temos solo e temos água. Então, podemos produzir comida e energia renovável. Temos petróleo no pré-sal e temos urânio. Temos a sexta reserva de urânio do mundo e mais da metade do território nacional ainda não foi pesquisada. Mas não se discute energia neste País, discutem-se juros. O que se há de fazer?

ISTOÉ - Mas Lula já disse que é preciso aguardar o resultado da política monetária, antes de tomar novas medidas.
Lessa - Não é verdade. Estão cortando despesas por todos os lados. As verbas prometidas não chegam. É uma quadratura do círculo. Como é possível compatibilizar o Meirelles empurrando os juros reais para cima e, ao mesmo tempo, expandir gastos? É impossível.

ISTOÉ - Não há uma política de investimentos, através do PAC?
Lessa - É preciso tomar cuidado. O PAC é a lista de projetos de infra-estrutura que o País devia ter começado a fazer em 2003, quando Lula assumiu. Sei disso porque ele me pediu a relação de projetos. Quando eu era presidente do BNDES, trabalhei três meses com uma equipe de 50 pessoas e fiz uma relação dos projetos prioritários. É quase a totalidade dos projetos que estão no PAC. Mas faltam ao PAC os projetos de infra-estrutura urbana, como metrô e trem. Fazer a economia crescer com o automóvel vendido a 90 prestações mensais congestiona ainda mais as cidades. O PAC é modesto em relação ao que o Brasil precisa e chegou muito atrasado.

ISTOÉ - O sr. ficou surpreso com as denúncias que envolveram recentemente financiamentos do BNDES?
Lessa - Duvido que essas coisas tenham acontecido. A estrutura de decisão e de operações do banco tem uma quantidade muito grande de filtros. Para haver corrupção, tem de corromper de cima a baixo. Por exemplo, todo o pleito passa pela comissão de prioridades, que é formada por todos os superintendentes do banco. E a decisão final é da presidência do banco. Vai ver que tem firma de consultoria vendendo o que não tem para entregar.

ISTOÉ - Esse cenário de denúncias e de repique inflacionário vai ter reflexo nas eleições deste ano?
Lessa - Eu acho que a despolitização avançou no Brasil numa extensão inacreditável. O povo não confia no Congresso e nos políticos. Curiosamente, isso aumenta o prestígio do Lula. Ele é o grande pai. Como acredita que os políticos são um poder inútil, quando não corrupto, o povo tende a buscar o pai universal.

ISTOÉ - O que poderá acontecer na eleição de 2010, que pela primeira vez não terá o presidente Lula como candidato?
Lessa - Pode acontecer qualquer coisa. Acho que o PT vai apresentar a Dilma (Rousseff, da Casa Civil) como candidata à Presidência. E o Palocci (ex-ministro da Fazenda) vai tentar se mexer para ser candidato, se o Supremo Tribunal Federal absolvê-lo.

ISTOÉ - Mas a ministra Dilma Rousseff tem chances, apesar de todo o tiroteio contra ela, antes do início da campanha?
Lessa - Qualquer um que não for o nome querido do mercado de capitais e do sistema de bancos vai tomar pancada de todos os lados. A Dilma está apanhando de maneira injusta. Acho que o Palocci é a figura de eleição do mercado. Se não podem fazer o Meirelles candidato a presidente, então que seja o Palocci.

ISTOÉ - Como o sr. avalia as chances do deputado Ciro Gomes, que seria o candidato de seu partido, o PSB?
Lessa - O Ciro seria um bom candidato. Gosto muito da idéia, do ponto de vista regional, de fazer uma aliança que não seja paulista. O Brasil precisa de um candidato que não seja paulista. A "paulistocentria" é excessiva. Gosto muito da idéia de que Minas esteja na composição presidencial. Gosto muito do Aécio, uma pessoa de muito potencial, e gosto muito do Ciro. Se eu fosse Deus e pudesse escolher, comporia uma chapa com os dois. A questão da cabeça de chapa ficaria para depois. Mas sou um ilustre marginal.

ISTOÉ - E o PMDB, ao qual o sr. foi filiado por tanto tempo, ficaria fora da corrida presidencial?
Lessa - Pertenci ao PMDB no tempo do dr. Ulysses (Guimarães). Fiquei no partido por respeito a Ulysses. E havia figuras no PMDB que acho residuais, mas maravilhosas, como Roberto Requião, Pedro Simon, Luis Henrique. Mas o lado bom está completamente sufocado pelo PMDB das "capitanias hereditárias". O PMDB hoje é do Renan Calheiros e do Edison Lobão. Esse PMDB não quer a Presidência, quer lotear cargos.

ISTOÉ - Qual é a avaliação que o sr. faz do presidente Lula?
Lessa - Acho que o Lula sabe o que é povo. Instintivamente, ele faz gestos e propostas que coincidem com o ânimo popular. Mas ele não sabe o que é nação. Não tem a menor idéia do que é nação e Estado nacional. Prova disso é a inércia do governo diante dos maustratos a cidadãos brasileiros, como se viu recentemente na Espanha. E a política econômica é uma catástrofe. Costumo dizer que o Brasil deixou de ser a República de Empreiteiras para ser o Império dos Banqueiros. E a empreiteira é mais conveniente, porque empurra o País para adiante. O presidente Lula fica deslumbrado pelo aplauso mundial. Ele é aplaudido por quem? Pelos parceiros dos banqueiros brasileiros.

ISTOÉ - E onde o governo acerta?
Lessa - Em toda a política social. É correta a política de elevar o salário mínimo. É correta a política de bolsa família. É correto o Lula botar uma cortina protetora na Previdência Social. Acho que ele instintivamente sabe o que o povo quer. E, se ele estiver com o coração bom, volta em 2014. Mas espero que ele volte sabendo o que é nação. Que estude um pouco para saber o que é nação.


Carlos Ayres Britto: "O período eleitoral é uma celebração da democracia"

O presidente do Tribunal Superior Eleitoral defende eleições sem restrição e diz que os políticos, com exceções, são epicuristas

[Atualização :: 14/07] O novo presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministro Carlos Ayres Britto, tem enfrentado dias turbulentos. Desde que assumiu o posto, ele se envolveu em embates polêmicos, como a proposta de divulgação do nome dos candidatos "fichas-sujas" e a inusitada restrição ao uso da internet como instrumento de propaganda política. Jurista com vasta experiência profissional e prolífica produção acadêmica, Ayres Britto foi nomeado ministro do Supremo Tribunal Federal há cinco anos, por indicação do presidente Lula. Ex-militante petista em Sergipe, ele era uma espécie de cicerone do então sindicalista Lula sempre que este visitava Aracaju. Carlinhos, como era conhecido, tinha a tarefa de buscar Lula no aeroporto e conduzi-lo para cima e para baixo – o advogado era o único petista que tinha carro com ar-condicionado. Dessas caronas ocasionais, nasceu a amizade entre os dois. Cabe a Ayres Britto, agora, zelar para que as eleições municipais transcorram dentro da mais serena normalidade democrática. Se depender dele, assegura, a transparência será absoluta – o que inclui a polêmica divulgação na internet dos candidatos que enfrentam processos criminais, mesmo diante das pesadas críticas que a iniciativa já recebeu de colegas magistrados. Casado, pai de cinco filhos, poeta eventual e vegetariano inflexível, Britto recebeu VEJA em seu apartamento de Brasília.

Veja – É possível fazer uma eleição limpa no Brasil?
Britto – Estamos trabalhando para que isso aconteça. A própria sociedade tem demonstrado que deseja isso. O Brasil quer eleições eticamente depuradas. Há uma espécie de água na boca das pessoas por um Brasil passado a limpo, um Brasil com políticos comprometidos com a causa pública. Percebe-se nitidamente uma santa curiosidade social pelas coisas do poder. Isso me encanta. Para que o voto seja consciente, a Justiça Eleitoral tem de providenciar o acesso desembaraçado às informações dos candidatos – inclusive quanto a sua biografia e eventuais processos criminais.

Veja – O senhor chegou a anunciar que o TSE iria divulgar a lista dos candidatos "fichas-sujas", aqueles que têm folha corrida, mas aparentemente voltou atrás.
Britto – Era minha intenção, mas esbarramos numa dificuldade operacional. Pela lei, as certidões criminais são anexadas em papel aos registros de cada candidato. Fui informado de que teríamos de digitar tudo isso. São mais de 3 000 cartórios no país e correríamos o risco de erros. Sugeri que escaneassem, mas não teríamos condições de realizar isso a tempo. Pretendemos fazer uma resolução para as eleições de 2010, determinando que os partidos preencham eletronicamente o conteúdo dessas certidões. E depois divulgaremos esses dados na internet. Isso tem sido motivo de muitas incompreensões, como se eu estivesse recuando da minha convicção de que é dever da Justiça Eleitoral prestar o máximo de informações ao cidadão. Minha convicção persiste. De qualquer maneira, nossas peças de publicidade vão orientar o eleitor a buscar esses dados nos cartórios.

Veja – O presidente do Supremo, Gilmar Mendes, disse que há um "ímpeto persecutório" contra os políticos. Chegou a classificar a idéia de divulgar a lista como "populismo".
Britto – Estamos vivendo uma época de afirmação democrática, na qual o pluralismo se apresenta com mais força. O dissenso surge em todas as áreas – e o Judiciário não é exceção. É claro que temos dissenso no Supremo. É saudável que seja assim. O presidente do Supremo pensa de um jeito. Eu penso de outro. Compreendo e respeito o receio do ministro, mas discordo dele. Cada um tem sua maneira de vocalizar suas idéias. É do estilo dele recorrer a adjetivos fortes. Mas eu vejo de modo diferente. Acho que os juízes estão ávidos por tirar a Constituição do papel e impedir a candidatura de políticos sobre os quais pesem graves crimes. O juiz contemporâneo é aquele que abre as janelas do direito para o mundo. Isso não significa um juiz vassalo da imprensa. Significa um juiz disposto a ouvir atentamente o que a opinião pública tem a dizer. Não há mais lugar para o juiz que se tranca numa torre de marfim ou paira numa esfera olímpica, como um semideus.

Veja – A divulgação não seria uma condenação antecipada do candidato?
Britto – Fui voto vencido no TSE sobre essa matéria. Meus colegas entenderam que o político multiprocessado pode se candidatar. Eu, não. Entendo que o processo penal, que trata do indivíduo, e o direito eleitoral, que trata da representação da coletividade, não se comunicam. Eles têm pressupostos filosóficos diferentes. A regra segundo a qual ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado protege o indivíduo. Acho isso correto, claro. Mas também acredito que o indivíduo não pode usar essa regra em seu benefício quando pretende ocupar um cargo eletivo. No direito penal, em dúvida fica-se a favor do réu. No direito eleitoral, em dúvida fica-se a favor da sociedade. Quando um político exibe um número de processos que evidencia um namoro aberto com a delituosidade, esse político não pode representar a coletividade.

Veja – A transparência, então, deve ser irrestrita?
Britto – O escritor francês Victor Hugo tem uma frase que considero perfeita para ilustrar a dimensão do que está acontecendo no Brasil. Ele dizia que "nada é tão irresistível quanto a força de uma idéia cujo tempo chegou". Chegou o tempo da transparência. Não podemos ignorar o anseio do país. Essa idéia tomou de assalto o espírito da coletividade. A transparência é a melhor arma no combate à corrupção. Neste momento, os juízes precisam perceber que não são ácaros de processo. Eles devem ter senso de realidade e sensibilidade suficiente para buscar informações na sociedade. Está entrando em curso uma nova era, de aproximação do Poder Judiciário com a sociedade, sem que isso signifique ímpeto persecutório ou estrelismo de alguns.

Veja – Como é possível motivar a população a se interessar pelo processo eleitoral num momento de extremo desencanto com a política?
Britto – Hoje, muitos tratam a eleição como um velório. Precisamos mudar isso. O período eleitoral é uma festa, uma celebração da democracia. Nossa idéia é transmitir aos eleitores uma mensagem leve, ressaltando a votação como um direito – e não como um fardo. O eleitor precisa perceber que essa depuração ética está nas mãos dele. Para ajudá-lo, vamos facilitar o acesso à biografia dos candidatos. Não conseguimos divulgar a lista dos "fichas-sujas", mas há alternativas. É fundamental, por exemplo, que os eleitores conheçam a relação dos administradores que tiveram suas contas rejeitadas em decisão definitiva dos tribunais de contas. Essa lista está no site do Tribunal de Contas da União e deve entrar em breve no site do TSE e dos Tribunais Regionais Eleitorais. Queremos assegurar que os eleitores tenham acesso ao máximo de informações sobre os candidatos.

Veja – O TSE pode fazer alguma coisa para coibir a prática do caixa dois?
Britto – Essa discussão atrai muitos extremos. A vida comprova que caixa dois é caixa-preta. No auge da campanha, a tentação de chegar ao poder é demasiadamente forte para a fragilidade humana. O fato é que a classe política, com exceções, segue a máxima epicurista. Epicuro (de Samos, filósofo grego) disse que, quando a tentação chegar, ceda logo antes que ela vá embora. Os políticos brasileiros são epicuristas. Eles cedem e vão atrás do dinheiro sujo. Das duas, uma: ou é dinheiro público obtido ilicitamente ou é privado – e neste caso vem acompanhado da cobrança de favores posteriores aos candidatos beneficiados. Há uma relação promíscua nas fontes de financiamento. O doador é um investidor. Ele quer o retorno de seu dinheiro. Diante dessa cultura enraizada da promiscuidade, eu adotaria uma solução radical: exclusivo financiamento público. Esse é um campo em que a opção é entre o ruim e o menos ruim. Dizem que seria uma violência para as pessoas que queiram contribuir. Que seja. Se se transigir, cai-se na promiscuidade.

Veja – Nesta eleição, espera-se que o presidente Lula seja um personagem onipresente nos palanques dos candidatos da base aliada. Não há abuso de poder nessa atitude?
Britto – Na minha visão, não há problema em o presidente subir no palanque dos aliados. Faz parte do jogo político. Não vejo sentido em cercear isso, desde que, como determina a lei, ele não vincule diretamente seu governo às ações do candidato no palanque. A Justiça Eleitoral não pode agir como um feitor, com chicote na mão e esporas no pé. Se dependesse de mim, seria tudo na base do liberou geral – claro que sempre dentro da lei. Mas preciso admitir que minha visão não é dominante no TSE.

Veja – Liberou geral?
Britto – É claro que não estou convidando os políticos a cometer desvios. Não vamos fechar os olhos para as ilegalidades. Digo isso como princípio orientador, no sentido de que estou mais preocupado em estimular o envolvimento do eleitor do que em restringir essa participação política. Esse estímulo é especialmente importante na internet. Acabamos de discutir essa questão no TSE. Pela lei, o candidato só pode fazer propaganda na sua página. Meu ponto de vista, que acabou não prevalecendo, é que deveríamos deixar a internet em paz. É um erro meter o bedelho nisso. A internet talvez seja hoje o maior espaço de liberdade individual, um espaço naturalmente interditado ao poder regulador do estado. Além disso, é impossível controlar a internet. Quanto aos excessos, vamos decidir caso a caso.

Veja – O Supremo decidiu recentemente que o mandato pertence ao partido, estrangulando a prática do velho troca-troca partidário. A Comissão de Constituição e Justiça da Câmara aprovou um projeto que restabelece a farra.
Britto – Esse projeto me preocupa. Fui relator desse caso no Supremo. Nós demos um passo largo para o saneamento dos costumes políticos do país. As urnas têm uma voz ideológica. A cada quatro anos, elas apresentam um desenho ideológico do país, por meio do mapa de quantos votos recebeu cada partido. Esse desenho, que resulta da vontade do eleitor, deve prevalecer por quatro anos. Não cabe ao candidato alterá-lo por conta própria. Nós estamos acabando com uma das maiores distorções da vida política brasileira: a cooptação do Congresso pelo governo. Com a nossa decisão, sair de um partido de oposição e ir para uma legenda do governo ficou mais difícil.

Veja – Mas, mesmo sem a troca de partido, essa cooptação continua, por meio de cargos, emendas parlamentares, os métodos de sempre.
Britto – É verdade. Não vou exagerar. Realmente não eliminamos o problema, mas demos um tranco nessa permissividade. Esse projeto da Câmara é a prova de que incomodamos. É bom lembrar que essa idéia está surgindo num projeto de lei. Quando decidimos a favor da fidelidade, nós nos embasamos na Constituição. Então, se o projeto for aprovado, vamos averiguar até que ponto ele colide com a Constituição.

Veja – O Supremo vai julgar a constitucionalidade da Lei de Imprensa. Afinal, é preciso haver uma lei para regular a imprensa?
Britto – O Supremo já se manifestou no sentido de que a atual Lei de Imprensa é incompatível com a Constituição. O debate se transfere agora para outra arena. Discutiremos se a generosidade dispensada pela Constituição à liberdade de expressão e à imprensa é compatível com a existência de uma lei. O fato é que uma lei significa restrição, exceções. Não posso antecipar voto, mas acredito que imprensa e democracia sejam irmãs siamesas. Nesse ponto, pelo que já foi manifestado dentro da corte, creio que os ministros do Supremo não tenham discordâncias expressivas. Certamente iremos analisar o assunto tendo em perspectiva o espírito da Constituição.

Veja – Nos últimos anos, multiplicaram-se os casos de corrupção envolvendo magistrados. Entretanto, houve poucas punições. O Judiciário faz vista grossa a suas ervas daninhas?
Britto – É um assunto gravíssimo. Uma eventual corrupção no Judiciário produz um estrago na democracia maior do que em qualquer outro setor. O juiz que faz de sua caneta um pé-de-cabra é o pior dos bandidos. Para mim, é triste descobrir que alguns juízes são corruptos e ladrões. Não se pode tapar o sol com a peneira. Aqui e ali irrompem evidências de corrupção. Mas é preciso ter em vista que, historicamente, os focos de defecção são poucos. A criação do Conselho Nacional de Justiça é uma resposta a isso.

Veja – Não é pouco?
Britto – É um começo. Está clara, na cúpula do Judiciário, a compreensão de que a corrupção é intolerável. Ela produz um abalo sísmico na credibilidade do nosso poder. Os processos que envolvem corrupção no Judiciário devem receber tratamento célere. Devemos ter também uma predisposição mais forte para investigá-los a fundo. A regra tem de ser tolerância zero. Não podemos usar como punição somente aposentadorias compulsórias. Nosso desafio é explodir os diques do corporativismo.

Veja – O senhor foi filiado durante dezoito anos ao PT. É possível despir-se da ideologia num dia e vestir a toga no outro?
Britto – É possível, sim. Meu temperamento e meu caráter ajudam. Eu sei virar páginas. Vivi intensamente minha filiação partidária. Mas, quando fui indicado para o STF, virei a página. Eu sou um magistrado. Não sou mais um filiado, um petista. Tenho proibição até de professar credo partidário. Agora sou um militante da Constituição. Se vou desagradar ao PT ou ao PSDB, não estou nem aí.


Heloísa Helena: "Lula comprou os movimentos sociais"

Ex-senadora chama o presidente de neoliberal e se candidata a vereadora com olhos no Planalto em 2010 - para empurrar o País à esquerda

[Atualização :: 07/07] Para quem chegou a receber 6,5 milhões de votos na última eleição presidencial, a iniciativa pode parecer sinal de decadência. Para tentar alavancar o PSOL, partido que ela mesma admite que não conseguiu crescer, a ex-senadora Heloísa Helena aceitou sair candidata a vereadora em Maceió, capital de Alagoas. Essa volta ao começo é uma estratégia para garantir a obtenção de coeficiente eleitoral mínimo para o PSOL. Uma vez que os demais candidatos do partido não têm a menor chance, Heloísa arca com a missão de, sozinha, fazer 20 mil votos nas eleições de outubro. Ela vai à luta para salvar o partido, mas também em causa própria: se vencer, Heloísa garantirá a si uma tribuna útil para tentar de novo uma vaga ao Senado ou à Presidência da República em 2010. Na campanha, a língua de Heloísa, que nos últimos dois anos se reservou praticamente às aulas no curso de Enfermagem da Universidade Federal de Alagoas, estará mais ferina do que nunca: "Tenho a humildade de me candidatar a vereadora para criar uma trincheira de resistência e luta contra o banditismo político praticado pelas forças retrógradas de Alagoas", disse Heloísa. Ela se refere a seus eternos adversários Renan Calheiros e Fernando Collor. Seu discurso é velho conhecido, quase um mantra pela ética, combate à corrupção e contra o que chama de receituário neoliberal de Fernando Henrique e Lula. "Tanto o governo Lula: quanto o governo Fernando Henrique merecem nota menos que zero, menos um." Na próxima eleição, o inflamado discurso da ex-senadora será acrescido, no entanto, de um componente especial: o fantasma da inflação. "Quando nós alertamos para o fracasso desse modelo, disseram que éramos aves de mau agouro", diz ela. A metralhadora giratória de Heloísa não poupa sequer alguns ídolos de parte da esquerda brasileira, como o presidente venezuelano, Hugo Chávez. Para ela, Chávez falha ao não ter apreço à democracia: "Apesar do abismo que separa Hugo Chávez do imperialismo de George W. Bush, se eu estivesse na Presidência do Brasil, eles não mandavam aqui".

ISTOÉ - A sra. teve 6,5 milhões de votos para presidente. Por que disputar agora apenas a eleição para vereadora em Maceió?
Heloísa Helena - É claro que eu me sinto profundamente agradecida à generosidade do povo brasileiro na campanha presidencial. Muito carinho, muitas flores, muitas blusinhas brancas. Foi uma honra participar desse processo. Como não tenho a intenção de mudar o domicílio eleitoral - embora haja muita gente querendo que eu faça isso, sigo o caminho político a partir de Alagoas.

ISTOÉ - Muita briga?
Heloísa - É um Estado onde as organizações criminosas do mundo da política são donas de todas as engrenagens dos meios de comunicação, do poder econômico e da estruturação política formal. Isso cria muitos impeditivos para que tenhamos militância política. Por isso, é de fundamental importância ter a oportunidade de criar uma trincheira na Câmara de Vereadores para criar um espaço capaz de enfrentar todo esse poderio político e econômico.

ISTOÉ - Sua candidatura à Câmara Municipal existe para que o PSOL obtenha coeficiente eleitoral?
Heloísa - Sim. É claro que de eleição a gente só sabe o resultado depois que se consolida o resultado nas urnas. Eu sei o prazer maldito que eu provocaria nas estruturas criminosas de Brasília e de Alagoas se não fosse capaz sequer de me eleger vereadora no meu Estado. Como os demais militantes não têm muitas possibilidades de ajudar no coeficiente, eu, sozinha, tenho que fazer 20 mil votos.

ISTOÉ - Prefeitura, não?
Heloísa - Eu não poderia ser candidata a prefeita, porque sei que em 2010 terei de cumprir alguma tarefa. Sendo vereadora, eu não preciso me afastar dos compromissos do mandato. Se eu me elegesse prefeita, significaria uma atitude deseducativa e irresponsável de abandonar a prefeitura com um ano e meio de mandato, coisa que eu me recusaria a fazer.

ISTOÉ - O que a sra.